sábado, 2 de abril de 2011

Das saudades minhas e de quem mais sentir

Quem nunca se desligou do mundo por minutos a fio enquanto reproduzia na mente uma série de boas lembranças, como quem vê um filme favorito? Coração que não relembra é coração sem saudade. E sobre estes, as palavras de Pablo Neruda soam muito melhor e mais precisas que as minhas: “(...) esse é o maior dos sofrimentos: / Não ter por quem sentir saudades, / Passar pela vida e não viver”.

Homens da ciência disseram, há alguns anos, que a lusa saudade é uma das palavras de mais difícil tradução. Permitam-me um adendo: difícil mesmo é defini-la. Os dicionários bem que tentam. Talvez o digníssimo Aurélio até tenha chegado perto quando disse que saudade é “lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las”. Boa definição, porém incompleta. Aliás, eis do que a saudade é feita: de incompletude.

Saudades podem ser tantas. E de tantos. São filhas das distâncias e irmãs de sentimentos contraditórios e ao mesmo tempo oriundos de um só, tristeza. Andam de mãos dadas com despedidas, perdas, amor, incompletude, dúvida. Serenas ou agudas, remediáveis ou não. E talvez a pior das saudades seja a nostalgia. Porque há saudades passíveis de morte, que dizemos poder ‘matá-las’, mas nostalgia parece que só sabe aumentar e aumentar. Mesmo quando retornamos ao que nos faz falta. Tristes são as saudades sem jeito, conseqüência de despedidas que nem sempre nos são consentidas. Às vezes, elas vêm de um adeus forçado. Outras, não percebemos o que vai-se embora até que tenha sumido.

Dei de falar de saudades porque o poema do señor Neruda fez-me pensar a respeito das muitas que carrego, que se revelam de diversas formas, diversas vezes, todo o tempo. Como a da avó que se foi e deixou os domingos vazios de carinho, de quintais e pitangas e do cheiro dos quitutes que só ela sabia fazer. Como a que nos vem quando a vida nos massacra de tal forma que tudo o que queremos é voltar ao tempo de ser protegido, de ser menino. Ou quando nos sentimos meninos demais e o olhar que o espelho nos devolve é o de um adulto reclamando o lugar que lhe é de direito.

Saudades de gente que disse ‘até logo’ e foi cuidar da vida em outras plagas. Desses, bem entendo. Coleciono-os. Gente com quem dividi e divido laços de amor, amizade, cumplicidade e sangue. Gente cuja saudade ‘corta como aço de navalha’, gente que amo amar, gente de quem eu precisava e preciso – e que continua na minha vida, num auxílio distante porém presente. Há quem tenha ido embora, julgando ser para sempre, mas acabou voltando, munido da mesma saudade. Outros que vão e voltam tanto que nem dá tempo de sentir falta.

Há saudade até de um tempo que nunca me pertenceu e que nunca conheci, mas cuja lembrança fere tal e qual fosse meu. Renato Russo disse certa vez sentir saudade do que ainda não viu. Sinto saudade de mim, de quem fui, da ingenuidade e fé desmedida que carreguei e hoje padecem de realismo. Saudade de ser criança, de desconhecer a maldade, de arranhar discos de vinil, arruinar fitas cassete, rebobinar vídeos. Saudade de correr descalça e mal vestida, nada me importando além da liberdade, doce liberdade.

Saudades podem quedar adormecidas por muito tempo, até que despertam, mais impetuosas, mais fortes, sedentas de lembranças e lágrimas nossas. Saudades são agonias das mais lentas. São solidão acompanhada. Mas têm uma beleza triste e inegável, até mesmo em sua construção enquanto palavra, que provém de solidão e de saudar. Uma saudação à solidão, pois.

Enfim... Estas são palavras de uma pessoa amedrontada pela passagem do tempo e com o coração pesado de tanta saudade. Mas ela não quis, em momento algum, parecer triste ou amarga. Pelo contrário. Saudades fortalecem. Mantêm o coração num vivo compasso. Eis uma sincera homenagem a todos e a tudo que me causam essa nostalgia que faz com que as coisas parem no tempo, como diria Quintana. Aos meus queridos e bem amados causadores de saudade.

2 comentários:

Isa Diamonds disse...

Obrigada por me fazer chorar quabdo falaste da vovó e seus quitutes e suas quintandas. Ela é, talvez, a minha saudade mais dilacerante porque não posso mais tê-la.

Mas como diria Peninha, 'ter saudade até que é bom, melhor que caminhar vazio'.

Bjo, te amo.

saudades.

Jasmelino M. disse...

Poxa Lud... texto muito sincero. Me pareceu um desabafo a um amigo íntimo, texto carregado de sentimento! Todos nos identificamos, pois todos sentimos saudade, seja ela em qualquer dessas modalidades! Parabéns!