quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

À INIMIGA, COM CARINHO

Atenção: favor, leia com o coração.

Um belo dia vc resolveu que se tornaria minha inimiga. Resolveu me odiar porque pensamos diferente. Resolveu desdenhar tudo que eu sou. Ou não. Vai ver sou eu com meu complexo de inferioridade. Pois saiba, não odeio vc. Claro, nunca ficaríamos bêbadas numa mesa de bar, nunca riríamos juntas das nossas desgraças, nunca tomaríamos café na padoca da esquina, nunca emprestaríamos os ombros, nem os sapatos. Mas não odeio vc. E pelamordedeus, antes que vc tome por pretensão ou ironia, não é.

Não te odeio porque te admiro, simples. E já disse isso em público, se não me engano. Discordo de quase tudo que vc pensa e diz, às vezes te acho rancorosa e raivosa demais com o mundo, mas admiro seu olhar para a arte. Admiro as palavras e adjetivos que vc usa no cotidiano fútil do msn. Admiro o que vc fez com sua vida, com seus amores. Uns poucos que eu soube porque nunca fomos e nunca seremos amigas. Mas eu não odeio vc, odeio seu ódio por mim. Porque, né? Não precisa! Vc, mais que ninguém, um dia soube o quanto eu sofri. Um dos meus sofrimentos. E me deu as palavras certas, na hora certa.

Talvez seja por isso, afinal, que eu também não conseguiria te odiar nem que eu quisesse.

Querida inimiga, pare e pense um minuto sem raiva. Pare de pensar que vc me conhece, nós nunca nos conhecemos além das superficialidades virtuais. Fico honestamente triste quando vc me julga mal, sabe? Se vc quer me odiar, ok, mas não tome conclusões precipitadas. Porque um dia vc já soube o que eu sou e não o que vc acha que eu sou.

Eu até gostaria de, numa outra vida, ter sido sua amiga, ter tido coisas em comum. Mas entenda que discordar de vc não significa termos que nos odiar. Significa troca, debate, respeito mútuo. Peço-lhe desculpas sinceras se já te ofendi, não foi a intenção. Ou foi em algum momento porque devo ter me sentido ofendida também, sabe como é, Lei de Talião, às vezes providencial.

Estou para escrever esse texto há tempos, que agora saiu como um filho: doloroso. Espero que vc entenda, foi feito com carinho. De verdade.

Té mais.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

CLASSE MÉDIA SOFRE SIM!


Se vc está lendo esse texto é porque se identificou com o título e, se se identificou, é porque tbm não passa de um assalariado. Portanto, sem aquele papo de coxinhização da nossa amada Classe Média, ou seja, NÓS - por supuesto e nada por acaso, primeira pessoa do plural.

Primeira, tudo que esta classe gostaria de ser. Plural, tudo que ela detesta. Freud explica: primeiro, de primeiro mundo, principal, potência, etc. Plural, de povão, multidão, grupo, romaria e o que mais a língua portuguesa permitir. E seu bom entendimento também.

Eu, que já nasci classe média, desconheço alguma coisa que possuo hoje sem que eu tenha lutado para. Nunca passei fome, claro. Comida na mesa, educação na escola e eu tinha o básico. O resto, fui atrás. Inclusive de sair de casa e me bancar sozinha. Por que todo este prólogo? Porque, colega, eu tenho ÓDIO e inveja da nossa querida elite. Que ciclo após ciclo cria gerações que serão ainda mais milionárias e igualmente insuportáveis. Que vai pra Paulista gritar contra a corrupção, mas sonega impostos. Eu tenho nojo e ódio disso. A inveja é só da grana mesmo.

Por que, né? Fulana (o) que aos 25 anos sabe falar fluentemente alemão, já que a vida toda papai e mamãe bancaram tudo. Inclusive, o aluguel. De qualquer lugar, desde um flat na Avenida Paulista a uma suíte em Paris. Pessoa nunca pegou ônibus na vida, nunca andou a pé até parar no meio-fio porque os sapatos vagabundos fizeram um rasgão no seu calcanhar. Nunca precisou arrumar um emprego de hostess pra pagar a faculdade ou fazer bicos de modelo pra pagar um mísero curso de inglês que, aos 20, ela fala com os pés nas costas. Nunca precisou contar os quilômetros que anda pra perder 500 calorias porque, afinal, ela faz yoga na melhor e mais cara academia da cidade (onde essa espécie se aglomera e se reproduz). Ou, simplesmente, vai à Los Angeles entrar na faca com Dr. Hollywood. Não sabe, enfim, o que é ter de escolher entre pagar uma conta e outra. Papai paga tudo, põe no cash, garçom!

Entendam que meu rancor não é com o fato de ela ser bem-nascida, que culpa tem, né? É melhor até que pegar o Porshe do papai e sair da balada sertaneja bêbada e pronta para atropelar um inocente, como tem sido bem comum em São Paulo nos últimos meses. Porque por mais legítimo e honesto que seja a origem da grana do papy, eu detesto que isso seja num país onde um garoto passa mal na rua porque está há 2 dias sem comer. Onde homens são convertidos em mendigos desde que lembram. Onde a miséria é um fantasma. Desculpa se isso pra vc é normal.

Pelo caminho mais cômodo, pode chamar de preconceito ou de ódio gratuito. Pelo caminho mais controverso, pode chamar de injusto. “Faz parte da realidade capitalista, de castas, de desigualdades”. É, faz parte que toda essa riqueza seja tão cruelmente distribuída mesmo.

Eu nunca quis ser rica e ganhar milhões de dinheiros. Eu só quero ser digna e, se eu quiser falar inglês, alemão ou francês, que isso não me custe os olhos da cara. Se eu quiser ter uma graduação ou pós, que eu não precise vender um rim. Será que tô sendo ingênua? Será que é pedir muito?

Hoje fui para uma entrevista de emprego no Shopping Cidade Jardim. Depois de uma viagem homérica pra chegar ao recinto, notei que NÃO HÁ entrada para pedestres no shopping. Tipo, não há mesmo. Só entram funcionários (pela porta dos fundos) ou quem tem carro. Na boa? Um dia vou entrar naquela pocilga com um Fusca caindo os pedaços. Quero ver se me barram. É estarrecedor, sério.

Aí vc entra no Shopping, um mundo maravilhoso se abre diante dos seus olhos. Cidade Jardim, do aramaico: “Jardins Suspensos da Babilônia de Nabucodonosor.”  Tudo incrivelmente limpo e pasteurizado. Não, higienizado, melhor dizendo. Prevenidos dos Dálits lá fora, que só podem entrar se um dia tiverem um carro de luxo, ou seja, NUNCA.

Aí fui passeando e vi um casal sentado na mesa de um restaurante em cuja imensa janela de vidro dava pra ver todo o bucolismo de uma São Paulo chuvosa, ô Terra da Garoa, poético quase. Enquanto o trânsito e o caos comiam soltos no mundo real. Uma catarse utópica pra vc criar seu limbo perfeito e fingir ser Maria Schneider e Marlon Brando em O Último Tango em Paris.

E logo eu, que adoro fugas e evasões de todos os tipos, faço coro com Gil quando ele diz: “vamos fugir deste lugar, Baby!”. Vamos fugir daquela fuga, daquela Babilônia luxuosa e asséptica, seca de emoções, viva de sonhos fabricados e empacotados numa caixinha de Natal.

Divaguei bastante só pra dizer que eu sou Classe Média e tenho sim, minhas ambições e pretensões, mas ao contrário dos coxinhas que representam o grupo, meus anseios não excluem o direito de qualquer cidadão de comer e bem vestir. De dividir o mesmo pão, a mesma casta que eu.

Ingenuidade? Pode ser. Eu só queria que o mundo fosse rico, mas fosse NOSSO, de nós. Primeira pessoa do plural. 

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Quanto ao aumento das passagens

Tá, empresários, pagaremos R$ 2,50.

No dia em que os ônibus pararem de quebrar no meio do caminho, nos obrigando a esperar sabe-se lá quanto tempo por outro – que provavelmente já estará lotado. Pagaremos R$ 2,50 quando toda a frota vier equipada com ar-condicionado e cadeiras inteiras. Quando os motoristas pararem de pôr Especial nos letreiros luminosos por questão de atraso ou preguiça. Aliás, quando estes mesmos senhores pararem de fingir não ver passageiros nas paradas, quando souberem respeitar a lotação máxima de cada ônibus. Pagaremos R$ 2,50 quando ocorrer, finalmente, a licitação de novos veículos e quando a frota existente for atualizada – afinal, é uma piada andar em veículos de, no mínimo, sete anos.

Pagaremos R$ 2,50 quando não mais formos obrigados a esperar 1h, 1h30 ou mais que isso nos pontos de ônibus desertos. Quando os motoristas deixarem de ignorar o retorno da Universidade Federal; quando não tivermos de nos amontoar feito animais para buscar lugares vazios ou mesmo subir nos veículos. Pagaremos R$ 2,50 quando houver respeito e coerência no sistema de transporte público em Maceió. Pagaremos R$ 2,50 quando não tivermos de nos submeter às máquinas de intimidade forçada que são os ônibus lotados. Pagaremos R$ 2,50 quando filas e catracas forem respeitadas, quando houver segurança nos ônibus, quando lucro for menos importante que o bem estar da população.

Infelizmente, ônibus são questão de extrema necessidade. Pagamos um valor abusivo que, a cada virada de ano, vemos crescer sem que cresça junto a qualidade. Classificar o absurdo é tão óbvio que está fora de moda. Ainda mais quando nos damos conta de que a maioria da população maceioense não tem condições de pagar tão caro, em todos os sentidos, para algo tão básico quanto se deslocar de um lugar a outro.

Uma coisa eu digo: se esse novo aumento for aprovado... Quem vai pular a catraca sou eu.

domingo, 24 de julho de 2011

AMY WINEHOUSE: SEXO, DROGAS E ROCK'N ROLL?


Sexo, drogas e rock’n roll. A tríplice aliança dos rebeldes com causa, que acompanhou a geração dos nossos pais, chega intacta ao século XXI?

Entre peaces and loves e os méritos de uma juventude transviada, a bandeira de hippies, punks, rockers era uma transgressão social, uma quebra de paradigmas. E aí santíssima trindade do Rock não era apenas uma expressão, mas um estilo de vida. Hoje o mundo finalmente descobriu que usar drogas faz mal (??), mas matar e morrer ao dirigir bêbado, pode (??!?). Mais ainda: hoje o mundo se pergunta "Por quê usar drogas? O que você quer provar e a quem?". 

Como diria Keith Ricards, “Aaahh, esses meninos com muito rock, pouco roll…”

Há uma lista incontável de ídolos que sobreviveram às drogas. Ótimo, de verdade. Mas o que faz a gente pensar que, sobrevivendo, continuariam produzindo? O que faz a gente pensar que, de repente, não cairiam no ostracismo, fadados numa versão decadente de si mesmos?

Não faltam bons exemplos dos que estão aí, apesar de tudo, vivos e firmes, a produzir. Chris Cornell, Steven Tyler, Ozzy Osbourne, Mick Jagger. Mas alguns outros são apenas sombra do que foram: Axl Rose, Sebastian Bach, Paul D'ianno, Tommy Lee.  

Ninguém se autodestrói porque quer. Até o barato virar dependência química, muitos esqueletos já foram escondidos no armário emocional. Amy cansou de ser genial e não foi de repente. 

Abro parêntese: sim, genial. A pequena judia está no mesmo patamar das grandes musas do jazz, do blues e do soul, afirmo sem-medo-de-ser-feliz. Amy é a Aretha Franklin deste século. Mas hoje paira uma lógica saudosista na qual reverenciar célebres do passado é diretamente proporcional a  subestimar os ícones da nossa própria geração. Perdoem o cetiscismo, não acredito que haverá nada de muito mais novo no cenário musical. Tudo que virá será sempre uma versão dos que já foram, dos que abriram portas para, justamente, servir de inspiração. Fecho parêntese

Nesses tempos contemporâneos e apocalípticos, todo mundo é Deus. Mesmo que todos estejamos sob o mesmo céu do julgamento, entoamos uníssonos um discurso hipócrita contra os males do século. Não use drogas, não coma muito, não fale palavrão, não surte, não quebre nada. A alma do rock'n roll nunca esteve tão carola. E aí, BUM! Nessa campanha “lute pela vida”, Amy jogou fora a sua. 


Mas a cantora não tinha compromisso algum com a Amy que o mundo conhecia. Desmedida, não dava a mínima em ser famosa, em ter fãs, em ter de fazer shows. A única coisa que lhe importava era sua própria dor. E, partindo da premissa de que todo poeta só é grande quando sofre, teve os maiores de seus lampejos criativos em Back to Black por conta do abandono do então namorado Blake Fielder - este sim, seu maior vício. No clipe da música, Amy enterra a si mesma, exatamente como o fez na vida real.


"Quem se habituou com fotos sensacionalistas de Winehouse, estranha a capa do primeiro disco, que em nada lembra as imagens fartamente bigbrotherizadas de uma celebridade mais conhecida por escândalos que por sua música". (Alexandre Inagaki)

A lembrança que mais gosto é ela linda, visivelmente chocada e emocionada ao saber que teria ganho 5 Grammys. Ingenuamente, torci para que superasse seus ímpetos suicidas. Sobre notícias da inglesa bebendo e caindo nos shows, eu só conseguia sentir uma enorme tristeza. Aquele desperdício que era um vozeirão naufragado em cachaça, a menina serelepe convertida em casmurro, toda a criação esvaindo em solidão. Uma pena mesmo, mas quem decidiria sobre isso não seria eu nem você. 

Anyway, que bom tê-la visto! Amy se inspirava em Aretha Franklin e Sharon Jones. Logo transformou tudo numa coisa sua e fez o grande favor de compartilhar com o mundo. Por essa generosidade, querida, obrigada.

Adeus!


We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to... black
(Amy Winehouse - Back to Black)

quinta-feira, 21 de julho de 2011

RÓTULO? PÕE NA CONTA, GARÇOM!


Se lê Nova é fútil, se ouve Madonna é gay, se vê novela é dona-de-casa, se chama Severino é porteiro, se é nordestino é burro, se usa batom vermelho é puta, se é petista é ladrão. 

Quando foi que ficamos assim tão babacas? Tão preto & branco, oito ou oitenta, Yin e Yang, dá ou desce? 

Perdi esse bonde dos fatalistas tão enredados no maniqueísmo da pretensão.

Eu adoro novela, Machado de Assis, Freeddy Krueger, Laranja Mecânica, Legião Urbana, Cazuza, Pearl Jam, Janis Joplin, Elvis, Los Hermanos, Etta James, Sidney Sheldon, Dan Brow, Shakespeare. Assim, tudo-junto-e-misturado. 

Mas na cartilha do caga-regrismo, pra ouvir Beatles preciso saber todos os álbuns. Para ouvir Last Kiss do Pearl Jam, preciso saber que, antes de fazer sucesso na voz de Eddie Vedder, a canção já era interpretada por Buddy Holly na década de 50. Aliás, preciso não confundir com Billie Holliday, a cantora de jazz. E preciso ouvir SÓ Rock, só Clássico, só Samba, só Jazz, só Bossa Nova. Do contrário, ou eu não tenho capacidade de escolha ou tô fazendo média com meio mundo. Difícil. 

Tenho um amigo jornalista, mestre em Ciências Políticas, inteligentíssimo. Adora Metálica e CALYPSO. Sério, Calypso. Outra amiga tem tatuagem, cabelo roxo e piercing nos mamilos, mas toda quinta-feira bate ponto numa casa de sertanejo. Albert Einstein repetiu a quinta série. Marilyn Manson não fuma, não bebe, nem cheira. E sabe lá Deus se trepa. 

E agora, José? Onde estão as regras? Em que Bíblia tava escrito?

Que mundo louco. Entre a Rua Augusta e a Vila Madalena, há mais mistérios do que julga nossa vã filosofia, meus caros.

Estereotipar é preguiça de entender, de conhecer. A maneira mais eficaz de deitar e rolar na cama do comodismo. Afinal, é muito mais fácil concluir que todo nerd é tímido, que toda gostosa trepa bem ou que todo padre é pedófilo. Certo?

Óbvio, fica complicado defender o cara que ouve Molejo, lê Paulo Coelho e adora Transformers. Mas no frigir dos ovos, pra mim é o seguinte: desde que vc não consuma APENAS cultura inútil, é válido se misturar com o povão de vez em quando. Isso é estar aberto. É até, talvez, ser eclético, como vcs gostam de dizer.

Uma grande maneira de colonizar a massa é massificar o erudito. Não há outra forma de fazer a Maria do morro ouvir a 4ª sinfonia de Beethoven que entoa o comercial do sabonete Vinólia. E eu, que sou Maria, mas nem tanto do morro, também jamais teria curiosidade de ler a biografia de Leonardo Da Vinci, não fosse pelo Best Seller homônimo de Dan Brown. Nem aprofundar-me-ia no jazz de Etta James, não fosse por Beyoncé na pele da musa em Cadillac Records.

Acho que é por aí.

A gente é tão bitolado em estereotipar, que na década de 90, lembro-me dos Engenheiros do Hawaii - contemporâneos de Guns N’ Roses e Nirvana - sendo criticados por NÃO compor e cantar em inglês. E hoje a gente queria que Amy Winehouse se comportasse, que se enquadrasse como Diva, que fosse exemplo.

Sério? Todo mundo igualzinho descendo na boquinha da garrafa também?

Não estou falando em vulgarizar tudo, mas de criar links e possibilidades para que a massa PARE de pensar como massa. Nós, "do alto escalão", deveríamos ser mais generosos. Pode ser utopia, mas prefiro lutar por este mundo de Matrix, onde o cara que ouve Metálica também pode gostar de Sidney Magal e também pode ler Nietzsche e assistir BBB sem que lhe taquem as pedras sob o julgamento da heresia.

Olha, quando eu era criança gostava da Xuxa e comia lasanha com farinha.
A gente cresce e fica tudo chato. Fim.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Finite Incantatem



Lembro direitinho de como e quando ganhei meu primeiro livro de Harry Potter. 25 de dezembro de 2000, Natal, véspera de uma viagem de férias. Eu sempre gostei de ler, mas não era algo que me fizesse esquecer praia e piscina com a família, então demorei umas duas semanas até lembrar da existência daquele volume fininho de capa estranha e título em verde brilhante (o logotipo com o raio no ‘P’ ainda não existia).

Foi amor à primeira leitura, e creio que muitos dos fãs mais antigos de Harry Potter sabem do que eu estou falando. Uma escrita fluida, uma história mágica e ao mesmo tempo sombria... Era irresistível! Veio a ansiedade pelo segundo, depois pelo terceiro... Eu e meus colegas de turma não falávamos de outra coisa. Simplesmente não conseguíamos tirar a cara dos livros. Li Pedra Filosofal em duas semanas, Câmara Secreta em uma semana e meia, Prisioneiro em uma semana e Cálice de Fogo em quatro dias.

Emoção suprema mesmo foi quando descobrimos que nosso livro preferido viraria filme. Não consigo descrever o nível da minha histeria no momento em que vi o trailer. Acho que, para muitos de nós, o primeiro filme é um dos melhores. É uma preferência muito subjetiva, ligada à nossa euforia de criança em ver na telona algo que sempre nos aguçou a imaginação durante as leituras. Enfim...

Particularmente, eu não sou uma grande fã da série cinematográfica de Harry Potter. As adaptações deixaram muito a desejar, em termos de roteiro, atuações, elenco... Mas estive no cinema, fielmente, a cada exibição, ao longo destes 10 anos. E agora que assisti ao último, é difícil acreditar que acabou. Me sinto meio órfã, a ficha não caiu, sabem? Parece exagero, mas eu cresci com Harry Potter. Não eu, somente, mas toda uma geração de fãs e leitores apaixonados. Nós vimos a série crescer. As locações, os atores, tudo. Foi graças a HP que melhorei meu nível de leitura e de escrita.Não consigo acreditar que não haverá mais estréias, ou fãs loucos nas filas de cinema ostentando varinhas, chapéus, corujas e até mesmo o uniforme de Hogwarts. Como assim, acabou?

Creio que todos nós partilhamos esse sentimento, sejamos fãs loucos a ponto de vestir, literalmente, a camisa do personagem, ou fãs moderados, que leram os livros, foram ao cinema e só. Independentemente de livro, filme, personagem ou Casa favoritos, estamos órfãos. E duvido, sinceramente, que uma outra série consiga alcançar o mesmo feito da septologia de J. K. Rowling. Que outro filme marque tanto as carreiras de Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint. Até mesmo que a própria Joanne consiga se desvincular do mundo que criou, nos próximos livros que vier a escrever. Harry Potter é um feito único, entendem? E insuperável. Não estou falando apenas da qualidade da série em si, mas do que ela conseguiu agregar ao seu redor. Foi impressionante.

Depois de devorar os últimos livros numa velocidade impressionante e, agora, ter assistido o último filme – que, cá entre nós, em comparação ao restante da série, conseguiu ser uma boa, densa e emocionante adaptação – eu percebo que a coisa pela qual tanto esperei já aconteceu e... E agora?

Agora que não temos mais o que esperar, bem... Não nos resta nada a não ser conservar os livros, para que nossos filhos leiam. E esperar, com todo o coração, que as futuras gerações tenham algo melhor a lembrar que a triste da Saga Crepúsculo.


quarta-feira, 18 de maio de 2011

PAI, PERDOA-OS!

Sabe, acho estranha essa pretensão exacerbada dos ateus. Uma pretensão muito parecida com aquela cultivada por doidos que compram seu lugarzinho no Céu e sua penitência no Apocalipse. Ou com aquele doido-mor que explode aos outros e a si mesmo em nome de um Deus. Fanáticos por fanáticos, dispenso. 


Cheios de verdades absolutas, ateus levam no cerne uma certeza que nunca tive. Sob certo aspecto, na verdade, eu os invejo. Mas relaxe um pouco, baby. Vamos sentar num bar, tomar uma, falar sobre sexo, política e futebol e aí jamais o meu Deus e o seu Darwin entrarão num duelo de facas. A minha fé e a tua intolerância não precisam ser sinônimos de ignorância.

Bom, vamos começar do começo.

Quando eu era criança acreditava em Fada dos Dentes, Duendes, Papai Noel. Mas como todo processo natural, a figura desses seres místicos desapareceu com a infância. Na adolescência, eu acreditava piamente em Deus. E tinha uma certeza tão absoluta quanto essa, que os ateus carregam como troféu. Ia para a igreja todos os dias da semana depois das missas só para me confessar. Confessava mentiras, desejos, masturbações, até não ter mais o que confessar. É este o lema da Igreja Católica Apostólica Romana: “Teu pecado é nossa locomotiva”.

Sem pecado não há missas, não há sermões, não há dinheiro, não há Deus. O meu Deus só existia para punir as tentações. Era inquisidor, impiedoso. Mais tarde eu descobri que este é o Deus das religiões. E religião é uma criação do HOMEM, não de Deus. ORA, ORA... que conveniente! Guerras santas são para justificar causas HUMANAS, não divinas. Lutar em nome de Deus? Bullshit. Deus gargalha sobre essas tolices.

Religião escraviza pela culpa, pelo medo, pelo conformismo. E no auge dos meus 17 anos, eu vivia assim, achando que tudo era um concurso Miss Madre Teresa de Calcutá. Minha piração máster foi quando o namoradinho da época me convenceu a perder a virgindade. Na verdade eu queria, mas achava que ia arder no mármore do inferno por toda a longínqua eternidade. É muito tempo, porra! Mesmo assim fui conhecer os mistérios da Távola Redonda - o que me rendeu um conflito interno desastroso. A boa notícia é que poderia ter sido pior. Eu me senti suja, imunda, discípula fervorosa de Satã. Depois disso não quis mais nunca saber do namoradinho. Pobre rapaz... tsc, tsc.

Aí um belo dia, eu me apaixonei por um ateu. TUM DUM TSSSSS!! Ironia fina. Um dos caras mais inteligentes que já conheci na vida, discutia a bíblia e nocauteava todos os meus frágeis e fantasiosos argumentos judaico-cristãos, deixando-me, fatalmente, encantada. Foi a primeira vez que eu pensei em sexo selvagem e questionei a existência de Deus. Foi a primeira vez que comecei a ser outra. Meu querido ex-namorado ateu não queria que eu largasse meu Deus. Queria, apenas, que eu questionasse até onde deveria acreditar. “Homem andando sobre as águas? Separando o mar com um aceno? Multiplicando pães e peixes? Sério??!?”, rebatia, indignado.

Então certa vez ele me mandou um email com a inscrição do Evangelho apócrifo de São Tomé, que diz: "O Reino de Deus está dentro de Você e à Sua volta; Não em prédios de madeiras ou pedras. Rache uma lasca de madeira e EU estarei lá; Levante uma pedra e ME encontrará". Obviamente, se reconhecido e oficializado, o escrito representaria a falência de toda e qualquer religião. Mas quem o faria além da própria religião? Voltamos à estaca zero. Mas pra mim, tudo já havia mudado. Blue birds fly over the rainbow, baby.

É estranho pensar que um ateu mudou minha forma de ver Deus. Não arrancando o Todo Poderoso do meu peito com esta pretensão de que é feita a maioria da espécie ateística. Tampouco me subestimando pelo simples fato de’u ter fé em algo que ele tinha certeza não existir. Não. Apenas riu e disse: ‘Over the rainbow, baby, OVER’.

Hoje meu Deus é terra molhada, é sorvete no pôr-do-sol, é brisa no rosto, é corpo solto. Toda vez que vou à ponte do Sumaré, eu sinto Deus. Meu Deus é um cara bacana, que peca comigo, segura minha mão quando choro e diz: “Porra, eu te avisei, caralho!”.

A vida não é fácil, né? Aos ateus, meu pesar. Deve ser horrível não ter um Deus.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O fim de uma odisseia (e o provável começo de outra)

Aviso prévio: este texto foi, na verdade, um exercício prático realizado hoje na aula de Oficina de Jornal Impresso 3. Não esperem grande embasamento teórico: é apenas um editorial de no máximo 20 linhas (que devo ter extrapolado, aliás).


Há quase 10 anos, este homem mostrou ao mundo a que veio. Hoje, foi anunciada sua morte. Osama Bin Laden, líder da Al Qaeda e responsável pelo atentado terrorista que levou abaixo o World Trade Center e deixou mais de 3 mil mortos, foi capturado e executado nesta madrugada no Paquistão, por forças americanas, e sua morte suscita discussões tão polêmicas quanto sua própria vida o foi.

O comunicado foi proferido pelo próprio presidente americano, Barack Obama, cuja gestão herdou a guerra ao terrorismo declarada por seu antecessor, George W. Bush, e vinha carecendo de identidade política desde que a euforia por sua eleição – e suas implicações para uma nação historicamente segregada – cessou.

Obama demonstrou-se, desde o começo de seu mandato, incapaz de manter as posições firmadas com tanta veemência em sua campanha, como ilustra o caso da prisão de Guantánamo. Sua gestão vem sendo marcada por concessões que maculam a difundida tenacidade dos Estados Unidos. Somando a isso o fato de que a nação cujas rédeas tomou ainda sofria com o impacto do 11 de Setembro, que colocou em xeque o nacionalismo e credibilidade do país diante do resto do mundo; e com a maior crise econômica desde 1929, a popularidade que lhe foi tão preciosa enquanto candidato sofreu um considerável abalo.

Eis que, numa junção de útil e agradável que mais parece presente dos céus, os homens de Obama acabam com a vida do inimigo número um dos Estados Unidos da América. Sem dúvidas, foi a morte mais oportuna da década, ao menos para o já não tão popular e carismático Barack. A morte de Bin Laden simboliza não o fim do terrorismo, mas a renovação dos ânimos dos compatriotas do Tio Sam – e do presidente, que fortalece sua imagem enquanto líder e agora sim pode sonhar com a reeleição.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Elitismo de Fã

Sssh! Cale-se. Também quero fruir.


Vocês conhecem ou ouviram falar de gente que deixa de ouvir determinado artista porque “gente demais está ouvindo”? Eis uma lógica estranha, porém verdadeira – há algum tempo, venho percebendo esse torcer de nariz que tribos ditas alternativas dedicam à popularização dos artistas de que gostam. Afinal, meus caros, se alguém se arrisca a viver de música, seu objetivo não é ser ouvido? E a mídia não pode e deve ser usada como um canal de divulgação para toda forma de arte?

Para ilustrar esse comportamento, citarei um episódio ocorrido semana passada. No Altas Horas, assisti à apresentação de uma banda até então desconhecida para mim, chamada ‘Macaco’. Pelo que percebi, a maior parte da população brasileira acordada àquela hora da madrugada e sintonizada na Globo também nunca havia ouvido falar no grupo. E o som muito me agradou. Era uma mistura exótica de ritmos latinos, rumba, ska, reggae, pop, flamenco, cumbia... Uma miscelânea que no fim das contas deu muito certo sem falar no vocalista gostoso. Fiz o que toda pessoa que se agrada de um novo som – e com conexão de internet disponível – faz: googlei. Baixei canções. E, claro, fiz uma busca no twitter também, por meio das benditas hashtags, só pra dar uma checada nas opiniões dos tuiteiros da madrugada. Entre os muitos comentários, detectei alguns que, curiosamente, lamentavam a exposição da banda no programa com a seguinte assertiva: “agora vai virar modinha”.

A questão é: ‘modinha’ é o que acontece quando um artista se populariza? Todos sabemos que, mesmo que motivado por algo nobre como é a paixão pela música, o músico quer e precisa ser consumido. O que delimita o lado nocivo e o positivo disso, se temos de ser maniqueístas, é a forma pela qual esse consumo se dá, ou as motivações por trás dele (começo a ouvir um artista por que ele me agrada ou por que todo mundo está ouvindo e preciso me integrar?). Se foi da música que alguém fez um meio de vida, ramo que é bastante difícil e inseguro, aliás, claro que seu objetivo é estar presente nos mp3 e disc players e rádios, país e mundo afora. O artista quer vender seus discos. Ele quer ser visto na TV. Ele quer usufruir dos meios avançados e eficazes de divulgação de que dispomos atualmente. E é justamente por estes canais serem tão democráticos e universais que você, caro fã, teve acesso àquela banda underground que ninguém mais conhece (ou assim você pensa), indireta ou diretamente. Então dê graças!

Nada gratifica mais um músico do que ser ouvido, que pessoas saibam suas letras de cor. Por que toda essa resistência à popularização dos artistas da fatia alternativa do mundo fonográfico? Debati estas idéias com um amigo e ele sintetizou muito bem o que isso quer dizer: cultura de privilégio. As pessoas hoje vivem em busca de compor sua imagem perante o mundo a partir dos diferenciais. A moda é ser diferente, gostar de coisas diferentes, ir contra o mainstream. O que era contracultura passou a fazer parte da cultura pop em caráter integral. Gostar de artistas e escritores pouco conhecidos ou pouco fruídos passou a conferir certa aura de superioridade às pessoas. Face à ‘democratização’ e à ampliação dos acessos, prevalece o exclusivo em detrimento do inclusivo. Se posso ter algo só pra mim, por que compartilhar, não é verdade? Bullshit. Essa lógica individualista é sintoma de algo muito maior e mais danoso, que não me atreverei a tecer comentários sobre antes de entender completamente (quem andou estudando Ética comigo há de entender...).

Caso a preocupação destes fãs elitistas fosse o medo de a indústria cultural interferir nos padrões de seus artistas preferidos, bem, nada a declarar. Esse medo é justificável, palpável e bastante pertinente, diante do panorama da própria indústria cultural e suas médias de gosto. Mas a causa é simplesmente e mais uma vez questão de status quo – ele novamente! As pessoas não querem perder o diferencial de seu cartão de visitas, por mais superficial que ele seja. Eu, particularmente, gostaria que alguns dos meus artistas preferidos fossem mais conhecidos, tocassem nas rádios. Haveria mais acesso. Haveria mais shows. E haveria mais gente gostando de música boa ou, pelo menos, música muito mais duradoura que as medíocres efemeridades que a indústria fonográfica tem semeado por aí.


P.S.: hey, @aridenisson! Obrigada pela discussão que motivou o post. Espero contar com seu suporte teórico e opinativo para os vindouros!

P.S.²: brincadeiras e trocadilhos com a imagem à parte, a banda 'Macaco' é muito interessante. Os afeitos à mistureba musical, googlem, youtubem e divirtam-se!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O dia do beijo

Dia do beijo, do orgasmo, dos namorados, do diabo a quatro. Não seria problema algum se tais datas fossem apenas datas, como tantos outros dias menos valorizados que a gente vê por aí. Mas um surto de carência parece tomar conta de grande parte das pessoas solteiras, como se só nesses respectivos dias elas se dessem conta de que não há alguém com quem trocar beijos, com quem fazer sexo (será tão difícil assim?), com quem namorar. Até mesmo alguns dos solteiros mais convictos sentem aquela fisgada de solidão no fundo da alma... Afinal, qual é a alma que uma vez na vida não quer pertencer a outra, sem mais?

Triste mesmo é pros solteiros qualquer coisa menos convictos. O bicho pega nesses casos. Os mais sensíveis mergulham num monólogo interno e existencialista cerceado de autopiedade e vou lhes contar, hein? É muito drama pra nenhum Shakespeare vivo neste mundo... Mas não estou condenando a ninguém, pelo contrário, eu os compreendo. Já integrei este quorum de inconformados e solitários, até perceber que datas são datas. São convenções que ninguém está obrigado a concordar ou partilhar delas. Ou não deveria, em tese... A cada dia dos pais, das mães, dos namorados, das avós, os shoppings fervilham de gente. Acho meio ridículo. Aliás, destas convenções sociais, apenas os aniversários me inspiram alguma simpatia, sabem? Faz sentido que te entreguem presentes pra celebrar um ano a menos na terra. É uma bela forma de consolo.

A culpa é do sistema. Sempre é, não é? O problema é essa sociedade que vive de status quo e atribui valor a uma série de coisas, como, por exemplo, ter namorado ou namorada. Namorar é bom? É ótimo! Mas o fato de não ter a tampa da sua panela não devia te inferiorizar diante da sociedade, ou melhor, ter a panela bem tampada não devia conferir tanta superioridade. Não é tão fácil que duas almas se encontrem, se enxerguem uma na outra e se disponham a passar mais tempo que o normal juntas. Tem gente demais no mundo. O que significa também uma infinidade de critérios de ‘seleção’ (se bem que as pessoas não andam tão criativas assim nesses tempos...). O natural é que haja muita, muita gente disponível, pois! Não vou bancar a conselheira amorosa e pedir que os solteiros tenham paciência, que a qualquer esquina o amor da vida surgirá e blablabla. Não, não. Só digo que datas são datas, ponto.

Um orgasmo não é melhor no dia do orgasmo, nem um beijo é melhor no dia do beijo. Piores também não são. Continuam sendo orgasmos e beijos, coisas muito boas, aliás. Quem tem a quem beijar hoje, maravilha, beijem-se, todos os dias, porque faz bem pra saúde mental e física. Quem não tem... Continuem a fazer o que fazem todos os dias, produzam, ouçam música, vejam filmes (contanto que não sejam comédias românticas, pelo amor!).

Aí algum espertinho que chega neste parágrafo final vai e mata a charada: essa Ludmila não tem a quem beijar e quer pagar de cult! Eu tenho uma resposta universal pra você, mas a minha educação mínima não me permite ser tão rude. Até tenho a quem beijar no momento, não que isso interesse, mas não estou preocupada. Porque não é apenas uma questão de beijo, é uma questão de quem beijar, entendem? Meu último beijo não foi lá essas coisas todas, por exemplo, e antes só que mal beijada. :)

(Hoje também é o dia do jovem e do office-boy. Vamos todos beijar jovens office-boys, galera! \o/)

sábado, 2 de abril de 2011

Das saudades minhas e de quem mais sentir

Quem nunca se desligou do mundo por minutos a fio enquanto reproduzia na mente uma série de boas lembranças, como quem vê um filme favorito? Coração que não relembra é coração sem saudade. E sobre estes, as palavras de Pablo Neruda soam muito melhor e mais precisas que as minhas: “(...) esse é o maior dos sofrimentos: / Não ter por quem sentir saudades, / Passar pela vida e não viver”.

Homens da ciência disseram, há alguns anos, que a lusa saudade é uma das palavras de mais difícil tradução. Permitam-me um adendo: difícil mesmo é defini-la. Os dicionários bem que tentam. Talvez o digníssimo Aurélio até tenha chegado perto quando disse que saudade é “lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las”. Boa definição, porém incompleta. Aliás, eis do que a saudade é feita: de incompletude.

Saudades podem ser tantas. E de tantos. São filhas das distâncias e irmãs de sentimentos contraditórios e ao mesmo tempo oriundos de um só, tristeza. Andam de mãos dadas com despedidas, perdas, amor, incompletude, dúvida. Serenas ou agudas, remediáveis ou não. E talvez a pior das saudades seja a nostalgia. Porque há saudades passíveis de morte, que dizemos poder ‘matá-las’, mas nostalgia parece que só sabe aumentar e aumentar. Mesmo quando retornamos ao que nos faz falta. Tristes são as saudades sem jeito, conseqüência de despedidas que nem sempre nos são consentidas. Às vezes, elas vêm de um adeus forçado. Outras, não percebemos o que vai-se embora até que tenha sumido.

Dei de falar de saudades porque o poema do señor Neruda fez-me pensar a respeito das muitas que carrego, que se revelam de diversas formas, diversas vezes, todo o tempo. Como a da avó que se foi e deixou os domingos vazios de carinho, de quintais e pitangas e do cheiro dos quitutes que só ela sabia fazer. Como a que nos vem quando a vida nos massacra de tal forma que tudo o que queremos é voltar ao tempo de ser protegido, de ser menino. Ou quando nos sentimos meninos demais e o olhar que o espelho nos devolve é o de um adulto reclamando o lugar que lhe é de direito.

Saudades de gente que disse ‘até logo’ e foi cuidar da vida em outras plagas. Desses, bem entendo. Coleciono-os. Gente com quem dividi e divido laços de amor, amizade, cumplicidade e sangue. Gente cuja saudade ‘corta como aço de navalha’, gente que amo amar, gente de quem eu precisava e preciso – e que continua na minha vida, num auxílio distante porém presente. Há quem tenha ido embora, julgando ser para sempre, mas acabou voltando, munido da mesma saudade. Outros que vão e voltam tanto que nem dá tempo de sentir falta.

Há saudade até de um tempo que nunca me pertenceu e que nunca conheci, mas cuja lembrança fere tal e qual fosse meu. Renato Russo disse certa vez sentir saudade do que ainda não viu. Sinto saudade de mim, de quem fui, da ingenuidade e fé desmedida que carreguei e hoje padecem de realismo. Saudade de ser criança, de desconhecer a maldade, de arranhar discos de vinil, arruinar fitas cassete, rebobinar vídeos. Saudade de correr descalça e mal vestida, nada me importando além da liberdade, doce liberdade.

Saudades podem quedar adormecidas por muito tempo, até que despertam, mais impetuosas, mais fortes, sedentas de lembranças e lágrimas nossas. Saudades são agonias das mais lentas. São solidão acompanhada. Mas têm uma beleza triste e inegável, até mesmo em sua construção enquanto palavra, que provém de solidão e de saudar. Uma saudação à solidão, pois.

Enfim... Estas são palavras de uma pessoa amedrontada pela passagem do tempo e com o coração pesado de tanta saudade. Mas ela não quis, em momento algum, parecer triste ou amarga. Pelo contrário. Saudades fortalecem. Mantêm o coração num vivo compasso. Eis uma sincera homenagem a todos e a tudo que me causam essa nostalgia que faz com que as coisas parem no tempo, como diria Quintana. Aos meus queridos e bem amados causadores de saudade.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Get Back

Por que será que os Beatles voltaram à moda? Okay, eu sei que o os meninos de Liverpool atingiram o patamar de clássicos do rock, e clássicos, de tão atemporais, passeiam pelas décadas fisgando gerações e gerações de desavisados pelos ouvidos. Só que nos primeiros anos da década passada, quando esta que vos fala começou a se interessar pela banda, creio que os Beatles visitavam a curva descendente da parábola. Não era tão fácil, ao menos em Maceió, fruir dos itens mais fúteis que todo fanboy e fangirl gosta de ter, especialmente na adolescência: camisas, pôsteres, chaveiros, CDs. Aliás, CDs! Estes benditos quase não existiam. Quando muito, reedições dos Past Masters I e II nas Lojas Americanas, a preços salgadíssimos, coisas pra colecionadores e roqueiros da velha guarda, mesmo.

Complicado mesmo era achar quem compartilhasse comigo da mesma playlist. Todo mundo já tinha ouvido falar dos Beatles e até podia arriscar um nanana meio bêbado do final de Hey Jude. Mas gostar, gostar mesmo? Que adolescente entre seus 12 e 14 anos iria incluir Help!, She Loves You, I Want to Hold Your Hand no discman (mp3 era artigo de luxo)? Não estou afirmando que eu era um caso isolado ou a única fã dos Beatles desde a tenra idade, como comentou um amigo do meu pai a respeito por esses dias, mas era assim que se apresentava minha esfera social. Meus colegas preferiam outras bandas que efervesciam na coqueluche midiática – curiosamente, todas atualmente extintas após seus (quase) literais 15 minutos de fama. Triste, não?

Eis que, em conversa recente com um amigo, ouço a frase “mas todo mundo gosta de Beatles, Ludmila!”. Meu primeiro instinto foi contrariar a afirmativa, um reflexo imediato dos anos anteriores, mas depois de uns segundos de conjecturas mudas, eu percebi. A tribo dita ‘alternativa’ sofreu sim mitose e meiose e está comum encontrar exemplares de seres trajando camisetas do quarteto inglês por aí. Aliás, minha síndrome de excluída é ficar louca pra puxar conversa quando os vejo transitar pela vida. Eu me esqueço de que os Beatles voltaram à moda...

Nothing is gonna change my world... ♫

Em 2002, chegou aos cinemas o filme I Am Sam (Uma Lição de Amor, na porca tradução), com Dakota Fanning e Sean Penn e, mesmo que a película não tenha sido a mola-motriz para o revival da invasão britânica, merece aqui certo destaque. A começar pelo fato de ser um filme belíssimo. A temática fica à sugestão do próprio título em português (argh). E tudo, claro, ao molho de Beatles. A trilha sonora é composta inteiramente por versões das músicas do fab four que são, na verdade, uma ótima forma, para os mais críticos, de começar a ouvir o som do quarteto. Digo isso porque sei que, tecnicamente falando, os Beatles eram músicos bem medianos, sem falar nas limitações técnicas da maioria dos equipamentos de gravação disponíveis na época deles. No entanto, bons amantes da música podem muito bem apurar os ouvidos e ir além dessa questão, afinal, Lennon, McCartney e Harrison eram compositores fora dos padrões e por isso arrebanham fãs até hoje, quatro décadas depois do auge.

A trilha de I Am Sam reuniu um punhado de artistas talentosíssimos, com destaque para Eddie pegael Vedder, que deixou You’ve Got to Hide Your Love Away com um ar muito sexy, e Rufus Wainwright com uma das versões mais lindas de Across the Universe. Outras que merecem muito ser ouvidas são I’m Looking Through You, que, perdoem-me os beatlemaníacos, ficou ainda melhor na roupagem da banda The Wallflowers; Two of Us, com Aimee Mann e Michael Penn e Nowhere Man, de Paul Westerberg. Aliás, querem saber? Baixem o CD todo e boa viagem.

Creio eu que o que impulsionou a juventude a conhecer melhor os Beatles foi o Across the Universe, de 2007. Como em I Am Sam, toda a trilha do filme é de versões do quarteto, com a diferença de que as canções são interpretadas pelo elenco ao longo do filme, quase como num musical. Além disso, a temática do Across é intimamente ligada à banda e referências ao fab são distribuídas por toda a película. As mais óbvias, é claro, são o nome dos personagens: Jude, Lucy, Sadie, Maxwell, Prudence, Dr. Robert (interpretado por ninguém menos que Bono Vox!), Jojo. O protagonista, Jude, sai de Liverpool, na Inglaterra, para procurar seu pai nos Estados Unidos e, nesse afã, conhece o estudante rebelde Maxwell, que torna-se seu melhor amigo, e a politizada Lucy, irmã de Max, por quem se apaixona.

Because the world is round, it turns me on... ♪

Para quem é fã de psicodelismo, hippies, anos 60/70, os movimentos sociais em protesto à guerra do Vietnã, Hair, Beatles, Janis Joplin, Jimi Hendrix e Bono Vox, o Across the Universe é mais que recomendado. Eu particularmente gostei bastante do filme, embora tenha minhas ressalvas quanto à execução total do roteiro. A ideia em si foi maravilhosa e a produção tem seus pontos fortes, como, por exemplo, as cenas em que Maxwell é recrutado pelo exército americano, ao som de I Want You (She’s so Heavy). O melhor do filme são as músicas, mesmo. Algumas das versões ficaram muito, muito interessantes, sobretudo I Want to Hold Your Hand, que passou de uma baladinha alegre a um blues doce, suave e melódico na voz da lindinha da T.V. Carpio; e a faixa-título, Across the Universe (é, eu sei, eu tenho uma queda por essa música), cantada por Jim Sturgess... A introdução no violoncelo ficou de arrepiar. E With a Little Help From My Friends, com direito a momento hard rock. Enfim... Acho que de toda essa encheção de língua, dá pra depreender que o conceito geral do filme me é bem positivo, não? Aos curiosos e dispostos, vale a pena a busca tanto pela película quanto pela trilha sonora.

Bom... Já que me estendi demais e sei que textos grandes assustam, ficarei por aqui mesmo. Menciono ‘de levinho’ o The Beatles: Rock Band, lançado na oportuníssima data 9/9/9 pela EA e a Harmonix. Pausa para o parêntese: a data foi oportuna em virtude de certo simbolismo que o número 9 tinha em algumas músicas de John Lennon, fecho parêntese. E o lançamento da discografia remasterizada do fab, resultado de quatro anos de trabalho sobre as faixas originais. Cada álbum vem acompanhado de um livreto e de um minidocumentário, com direito a comentários dos quatro Beatles e até do quinto, George Martin. É uma senhora aquisição. Inclusive para o bolso... Eu, como estudante, permaneço de olho comprido, chupando dedo e ouvindo a discografia completa de que eu disponho (santo 4Shared), com as distorções sonoras características. Ê, vida de gado...

Minha opinião geral sobre o retorno até que é bem favorável. O objetivo de um artista é ser reconhecido, não é fato? Se o quarteto de Liverpool tem resistido aos anos e ainda conquista admiradores de gerações e gerações, a missão foi mais que cumprida. Claro que vivemos tempos outros, em que sexo, drogas, rock’n’roll e liberdade criativa não carregam todo o sentido de rebeldia e ruptura de outrora. São tempos musicalmente decrépitos e às vezes eu penso, melancólica, que todas as possibilidades de inovação há muito se esgotaram. Então, se consumo é a regra, com todo o meu asco por modismos, ao menos a epidemia da vez fez história e boa música. Eles só estão voltando ao lugar a que pertenceram e ainda pertencem.

domingo, 30 de janeiro de 2011

A força está conosco


Nerd. Primeira vez que fui associada à palavra, fiquei, não há outro modo de descrever, fula da vida. Pudera: meu pífio conhecimento acerca do termo e de todos os seus afluentes provinha de filmes americanos. E filmes americanos, amigos, não devem ser tomados como referência pra nada. Para mim, nerds eram aqueles patéticos coadjuvantes de quase todo blockbuster adolescente, que serviam de saco de pancada dos valentões/populares e usavam óculos remendados, tinham espinhas, vida social 0 e pouca ou nenhuma habilidade com o sexo oposto.

Por mais passível de perdão que fosse minha ignorância à época, afinal, eu tinha uns 12 anos de idade, ainda hoje me envergonho de ter reproduzido esse julgamento. Porque a acusação procedia, no fim das contas: eu era nerd. E, por ser nerd, sofri bastante, perseguida por gente que revelava o mesmo senso comum que espelhei quando fui definida dessa forma por alguém. Adolescentes podem ser seres maquiavélicos, tão sedentos por aceitação que para consegui-la chegam a humilhar pessoas cujo ‘crime’ é simplesmente destoar do padrão.

Nerds, meus caros, nada mais são que pessoas que não refletem as preferências das médias de gosto e enveredam por atividades, hobbies e preferências relacionados a videogames, desenhos animados, mangás e animes, RPG, universos paralelos, livros de fantasia e ficção científica. Por não seguirem o gosto das maiorias, são escorraçados. Fórmula simples. E aos que nos acusam de insanos e fanáticos (ou alienados da realidade), eu rebato: e os colecionadores de correntes e bonés de aba reta? E as garotas adolescentes que morrem de amores por um vampirinho fluorescente ou por qualquer uma destas efêmeras boy bands? Não são muito diferentes de nós, não concordam? Com a diferença de que a maioria de nossas preferências nos conduzem a algum tipo de compensação intelectual.

Mas os tempos mudaram, e devo ser justa: nossa vida melhorou. Não porque as pessoas tomaram consciência de que as diferenças devem ser respeitadas por representarem a mais intensa e preciosa manifestação da dinâmica humana. Mas indústria abriu os olhos (e portas e janelas) ao lucrativo mercado tecnológico, já que a contemporaneidade está cada vez mais atrelada e imersa no mundo virtual. Voilá!: somos, de repente, necessários.

O nerd caiu nas graças da moda. No cinema, na música, no mercado de trabalho, eles vêm conquistando um espaço que era impossível de se imaginar duas décadas atrás. Prova disso é a popular (e engraçadíssima) série The Big Bang Theory e algumas outras menos explícitas, porém de cunho bastante denso, bem ao gosto geek: Lost, House, Heroes. Ou o visual/estilo de muitas das bandas da atualidade (excetuando, coerentemente, os difusores do happy rock): o indie nunca esteve tão em alta. Até mesmo um vlogger nerd conseguiu cair no gosto de milhões de brasileiros e vive hoje de seus vídeos – e muito bem, obrigado – disponibilizados numa ferramenta também bastante nerd: o YouTube. Aliás, alguém aqui vive sem o Google? Não? Pois bem. Adivinhem o que os fundadores do Google são.

De repente, fomos promovidos a ‘tribo urbana’ – mesmo patamar ocupado por punks, grunges, góticos e outros –, respeitados, requisitados até. Uma lástima que a óbvia razão disso tudo seja algo frívolo como o vil metal. Descobriram que o nerd de hoje é o cara rico de amanhã e isso deu à corja de quatro-olhos um pedestal de respeito, quase soberania. Porque são eles que montam os amados-idolatrados-salve-salve iPods, iPhones, iPads e todos esses i’s. Foram as horas diante do computador de um deles que trouxeram à sociedade a benesse das redes sociais do tipo Orkut/Facebook/Twitter. Sem falar nos sistemas operacionais, blu-rays, nintendos e PSs e toda parafernália tecnológica que hoje em dia não é menos que essencial.

Não tenho uma opinião formada sobre estes novos tempos áureos. Não dá pra ser maniqueísta e classificar a situação como boa ou nociva, já que tudo o que embarca nessa onda mercadológica corre o risco de ser passageiro. Tudo bem que nossos alvos de interesse estão mais acessíveis e nossa vida está deveras mais descomplicada, mas corremos o risco de ser chamados de posers, uma vez que qualquer seguidor de moda tem sua autenticidade posta à prova (ou em xeque, mesmo). Fora que toda essa coisa de tribalização é meio estúpida e superficial... E ainda bate aquele medo de que os nerds caiam no marasmo da aceitação, como todo o resto. Será que sem a adversidade, poderemos continuar a evoluir? Responda-nos, Asimov!

O que eu posso fazer é declarar certo alívio, já que a nova geração de pequenotes é toda vidrada em videogames e desenhos animados cada vez mais espaciais, e seria lamentável que estes diabretes, futuros nerds, tivessem que enfrentar a rejeição na fase da vida em que as suas conseqüências são mais decisivas e permanentes. Também me sinto aliviada por ter achado meu lugar ao sol, que não é muito diferente do da maior parte das pessoas. Na verdade, eu permaneci onde estava... A opinião pública é que mudou consideravelmente.

Achar que todo nerd é o tipo esquálido que a indústria do cinema hollywoodiano vende é quase a mesma coisa que achar que comunistas comem criancinhas, ou que os Estados Unidos são a terra da liberdade. O nerd não possui uma característica física ou um modo de vestir que o caracterize. Eu mesma já surpreendi muita gente ao assumir minha, digamos, ‘opção social’. Somos capazes de nos misturar, conversar sobre qualquer pauta, ter vida social/sexual/amorosa e ainda assim gostar muito de videogame e livros de fantasia. Temos senso de humor e nosso entendimento de piadas vai muito além de circuitos de computador e fórmulas físicas. Em suma, somos pessoas absolutamente normais. Portanto, amigos meus de ‘tribos’ outras que reclamam que eu ando com gente estranha demais, dispam-se, um pouco que seja, deste preconceito e percebam que a amiga de vocês aqui é tão estranha quanto. ;)

Ludmila é nerd, estudante de jornalismo, joga RPG e garante que o fato de um homem entender que meia lua pra frente + bola = hadouken é extremamente afrodisíaco. Bom pra ela.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

CARTA PARA MISS WINEHOUSE - Show em São Paulo

Eu não fui ao show de Sir Paul McCartney e isso foi para sempre uma ferida no peito, sem compensações, todas as penitências. A vinda de Paul foi mesmo a esperança de dias melhores e eu não estava lá. Aí fiquei por toda a eternidade amargando no Limbo, desolada.

Então soube do show da Amy. ‘Eis minha chance de redenção’, pensei. E antes que me venham as pedras, não estou a comparar Sir McCartney com Miss Winehouse. Mas cada um carrega as cruzes que lhe aprouver, estas são as minhas.

Belo dia um amigo questionou: ‘Vc não fuma, não cheira, mal bebe... Por quê Amy?’. Não é nada disso, sabe? Amy foi reduzida ao tom pálido e esquelético da Bad Girl que o mundo a-ma comprar. E achincalhar. Mas ao contrário do que prega o senso comum, Amy é toda amor. Senhoras e senhores, a pequena judia de Londres é MAIS e eu vi com estes olhos que a terra há de comer. É black, é soul, jazz, blues, R&B, reggae. Na voz potente, no corpo franzino, na catarse da contradição.

Amy Winehouse lembra um personagem de Machado de Assis: eterna convalescente de um luto, de um casmurro. Só as grandes divas do jazz sofreram de amor como ela e transformaram a dor em melodia com gosto de cachaça. Um brinde, pois! Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Etta James, Sharon Jones. ‘You go back to her and I go back to us...’. Pura identificação. Em Back to Black, álbum que a revelou como fenômeno, Amy canta os dissabores do abandono em lágrimas secas. Sem máscaras, em fratura exposta. Transformando o lugar-comum. O que aconteceu em Back to Black não acontece toda hora. Beyoncé e similares, por favor, nasçam de novo.

Amy, a subversiva, a preguiçosa que não se leva a sério, tampouco seus muitos vinténs. Amy avisa "I told you I was a trouble"com toda a honestidade que lhe é peculiar. Seu show foi isso, honesto. Talvez eu não devesse, mas estava solidária com Amy. Se ela cantasse UMA música apenas, teria valido meu ingresso. Ela cantou DEZ e algumas extras, ainda não lançadas. Não perdeu o timing, o timbre, a voz. De onde eu estava, foi uma vida inteira de emoção gratuita.

Não há um fã de Winehouse que não sofra por ela como quem sofre por uma irmã mais nova. De verdade, de longe, de mãos atadas na vontade de jogá-la debaixo de um chuveiro frio. Mas quem mesmo precisa de uma Amy comportada? Tsc! Eu quero mais é que ela quebre tudo, que erre a letra, que seja o que ninguém pode ser. Amy já pode morrer, senhores. Assim como Che Guevara, já virou estampa cool nas camisetas dos teenagers, simbolizando rebeldia. Amy já pode morrer. E, se morrer, morra cantando. E, se viver, viva gravando álbuns. Seja Joplin, uma lenda morta. Seja McCartney, uma lenda viva. E seja Amy, que é o que ela sabe ser melhor.

Cheguei ao Summer Soul Festival indiferente ao sol de 31°C, às 8 horas de espera e à multidão histérica, só para vê-la de perto. A vida é uma só, afinal. Obrigada pelo melhor dia, Miss Winehouse. 

domingo, 9 de janeiro de 2011

Convenientemente convencionado

Convenções.

Anos atrás, eu gostava de me classificar como imune a estas cujas ditas. Aliás, era uma das críticas mais ferrenhas da minha coleção de debates: eu trazia no bolso trilhões de argumentos e travava discussões homéricas sobre a hipocrisia do mundo, o distanciamento que há entre ser um ‘bom cidadão’ e ser autêntico... Os velhos blábláblás de sempre. E, numa pretensão inconsciente, ou ao menos não-intencional, eu não me punha no patamar de vítima/escrava/praticante desse meu objeto de repúdio. Oras, se eu sabia o quão maléficas elas podiam ser, se tinha plena consciência do que era e do que não era convencionado, automaticamente eu tinha de ser uma exceção, livre do poder de influência das benditas. Não tinha?

Errada, mocinha!

Mas vocês hão de perdoar uma jovenzinha deslumbrada pelos recém-descobertos benefícios da retórica e dos outros frutos de leituras muitas. Adolescentes tendem a encantar-se com tudo, não importa em que aspecto e acabam por , estabanados, trocar os pés pelas mãos. Felizmente, o tempo me deu um pouco de discernimento e eis-me aqui, totalmente envolvida com as amarras que tanto lutei pra desatar... E consciente de todas elas.

Apregoaram por aí que o homem é um produto do meio e do momento histórico que vivencia. A priori, a frase deu-me muito que pensar, indecisa entre concordar ou apenas menear a cabeça no conforto do meio-termo. Anos depois, eu descobri as graças da concordância parcial. Desconfio de observações absolutas. Mas sim, somos um reflexo, ainda que em menor escala, da nossa realidade. Não da forma determinista como apresentam os livros da ciência amante do saber, querida filosofia, mas proporcionalmente a uma série de quesitos internos. É impossível não carregar um mínimo dos condicionamentos com que somos bombardeados desde meninos. Claro que o tempo nos agracia – ao menos a alguns de nós – com uma espécie de membrana plasmática, daquelas semi-permeáveis, para separar o joio do trigo. No entanto, é um filtro falho, como tudo o que diz respeito a nós, humanos.

E aqui estou eu, completamente imersa nas tais convenções. Quando digo que são muitas, infelizmente não se trata de uma hipérbole. Comecemos por um exemplo dos mais irrelevantes. Há pouco mais de dois anos, incutiram-me na cabeça que escrever redações com palavras no gerúndio é errado. Por conta disso, passei um ano sofrido, cheia de dedos, evitando as malditas letrinhas ‘ndo’ nas redações, temendo que o risco vermelho da caneta do professor subtraísse pontos dos textos que eu me esmerava tanto em escrever. Na faculdade, ninguém censurou meus gerúndios. Sequer mencionaram algo contra eles. Ora bolas... Se eles existem, por que não usá-los, caramba? Estúpida essa língua cheia de meros apêndices que só têm a serventia de complicar a vida escolar.

Mas tudo não passa de convenção!

E agora meu prazer quase sádico é livrar-me delas, uma a uma. É um esforço quase hercúleo. Porque me habitam resquícios de machismo, conservadorismo, superficialismo, toda essa coisa arraigada desde antes de eu saber pensar. São parênteses demais os que me acorrentam. E, sinceramente, já me despi da vergonha de assumi-los. Sim, eu morro de preocupação com o que pensam de mim. Gasto tempo deixando minha aparência aceitável. Deixo de tomar iniciativas só porque a sociedade deu esse aval aos homens. Em muita coisa, não passo de um espelho do senso comum, e isso me mortifica. A parte boa é que estar consciente disso já é um passo; querer livrar-se é outro. Força de vontade não me falta, mundo. Posso muito bem lidar com os outros 500 pendentes, não posso?

Que 2011 seja o ano da libertação, amém!